Todos os dias, manifestas a loucura.
Dormes? Comes? Bebes? Manifestas.
Diagnóstico infalível de maluquice é o teu ato de levantar todas as manhãs.
Manifestaste a loucura desde o primeiro choro. Desde que rompeste a bolsa. E a cada respiração.
Manifestas a loucura quando acessas a Internet e viajas pelo mundo virtual. Também quando te desconectas e andas pelas ruas de verdade.
Mesmo sabendo que não há nada de novo sob o Sol, procuras. És doido. Nunca acharás.
Quando assistes ao Big Brother, manifestas.
Quando queres expressar o inexprimível, manifestas a loucura, por que não és o Verbo. E o Verbo está em Deus, e o Verbo é Deus. Quem és tu?
Que manifestação de loucura pode ser maior do que pensares no amor que nunca tiveste, na casa que jamais compraste e no país que nunca verás?
Manifestas a loucura quando vais trabalhar, e no meio de uma tarde perguntas a ti mesmo: por quê?
Manifestas a loucura quando sonhas em dar uns tapas no teu vizinho.
Quando encontras o teu filho na rua, e de repente lembras que nunca tiveste um filho – manifestas a loucura.
Quando não prestas atenção ao cantor cego na Feira da Lua, manifestas. E se comes um pastel de vento – manifestas ainda mais.
Se vais ao bar, manifestas. E a cada cerveja que pedes, multiplicas a loucura, a embriaguez e o trabalho dos teus rins.
Quando perguntas pelo silêncio do Criador, manifestas a loucura.
E se admiras a menina do Marmitex. E se não admiras, aí é que estás louco de vez, rapaz!
Amiga, se fazes uma promessa a Santo Antônio ou a Santo Expedito; se consultas o horóscopo; se procuras a linha da vida nas mãos – em qualquer um desses casos, manifestas a loucura.
A loucura é manifesta se escreves uma carta imaginária a alguém que nunca mais apareceu. E se envias a carta, manifestaste duplamente a mesma loucura.
Quando pensares em tomar banho no Lago Igapó – eis a insanidade.
Se lês um poema na fila do Banco do Brasil. Se acreditas em previsões de comentaristas econômicos. Se falas com máquinas e deixas recados em secretárias eletrônicas – é tudo sinal de que estás bem doido.
A insanidade se manifesta quando compras um cachorro sem motivo.
Se observas carinhosamente uma gata com gravidez psicológica, estás louco. E se não observas, estás pior.
Se participas de uma reunião – qualquer reunião, qualquer! –, piraste.
Se furas o sinal vermelho na Duque de Caxias, dominou-te a insanidade. Se esperas, ela ainda não te dominou, mas não demora.
Quando William Bonner diz boa-noite no fim do Jornal Nacional e tu respondes, manifestas a loucura. Se não respondes, és louco e mal-educado.
Quando xingas a mãe do motorista, e de repente lembras que a mãe do cara nada tem a ver com a história, manifestas a loucura. E se continuas xingando o cara mesmo assim, manifestas a loucura ao quadrado.
A loucura é irmã dos cabelos e unhas, que continuam a crescer mesmo depois da morte. Os mortos são ainda mais loucos que os vivos; a diferença é que não se manifestam à luz do dia.
Nós, não. Nos manifestamos de dia e de noite. 24 horas. Pra cima e pra baixo. Em palavras, atos, omissões e pensamentos.
E de uma coisa, podes ter certeza. Manifestarás de vez a loucura assim que chegares ao final do primeiro post do Briguet.