Repórter das Coisas

A gripe já pegou

O padre Fábio de Mello está fazendo sucesso. Era esperado para um show em Londrina neste domingo. Não vem mais. Bocas de Matildes dizem que ele não vem por causa da gripe suína. Mas é bom lembrar que, oficialmente, a assessoria do padre informa que ele adiou a apresentação por “motivos de força maior”.

Já que estamos falando de um padre, acredito que é coisa de Deus. Sou católico, não consigo imaginar força maior. Um amigo ateu diz que a força maior pode ser “o Ratzinger” (é assim que os ateus chamam o papa Bento XVI, brilhante teólogo e um dos homens mais preparados entre os que ocuparam o Trono de São Pedro nos últimos cem anos).

Mas acho que não foi “o Ratzinger”, não. O papa tem mais o que fazer. Talvez nem sequer o padre esteja sabendo por que o show foi adiado. Afinal de contas, Fábio de Mello é um homem cheio de compromissos: além dos shows, há os programas de TV, as entrevistas, os livros, as palestras. Para não falar nas missas, no estudo e nos momentos de oração.

Não sei se o padre está com medo de pegar gripe da gente, mas o fato é que a gripe pegou na gente. Até o momento há apenas um caso confirmado, mas a imagem da cidade está indissoluvelmente associada à pandemia. E não apenas por haver 22 casos suspeitos, mas também pelo fechamento do campus universitário. Espirrar e em seguida gritar “Eu sou londrinense!” equivale a gritar “Palmeiras!” na sede da Gaviões da Fiel; ou “Gilmar Mendes!” numa reunião do PT; ou “Milton Friedman!” numa plenária do PCdoB; ou “Twitter!” na presença do aiatolá Khamenei.

A Rosângela está lendo um livro escrito em parceria pelo padre Fábio de Mello e o professor Gabriel Chalita, ex-secretário estadual de Educação de São Paulo. “Sobre os medos contemporâneos” é um livro epistolar – um diálogo por meio de cartas entre amigos. Ainda não li, e será difícil fazê-lo agora. Tenho um montão de livros na fila. Quando digo montão, é montão mesmo: a Rô fica brava porque os livros encobrem o mostrador do rádio-relógio. (Coisas domésticas, que cabem na crônica.)

A gripe suína virou um dos medos contemporâneos. Eu tenho alguns medos piores – e o mais grave é que eles se realizaram. Um dos meus medos era Lula ser reeleito presidente. Ele não só foi reeleito como tem mais de 80% de popularidade, deixando-me sozinho na Kombi com mais meia dúzia de opositores. Nesta semana, apareceu abraçado a ditadores africanos – e falando de democracia. Meu medo é que Lula resolva importar um desses modelos de governança – Kadafi, Bashir, Ahmadinejad, Hugo Chávez – para as circunstâncias brasileiras. Afinal, Lula é igual a Sarney. Não é um ser humano comum. E essas coisas pegam.

Padre Fábio, reze por nós. Se der tempo.

PS: No texto original da crônica, publicada no JL, usei “exportar” em vez de “importar”. Mas, pensando bem, não ficou tão inadequado assim. Questão de perspectiva. Afinal, Lula é o nosso presidente que mais viaja – para encontrar ditadores. Nunca na história deste país...

Publicado em 03 de julho de 2009 às 08:41 por briguet

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Quatro sonetos

1. DO JUIZ

Em minha defesa alego
que mal não quis a ninguém,
embora o erro – não nego –
em geral nasça do bem.

Por atenuante digo
que muitas vezes pensei
em rezar para o inimigo,
mas não cumpri essa lei.

Diante do Tribunal,
nada tenho a dizer, não.
Talvez, apenas: – Foi mal.

A punição do pecado
é tudo, porque mais não
foi dito nem perguntado.

2. DAS CALENDAS

Verão – não neste inverno –
o calor de uma estação
se olharem o eterno
ardor que nunca diz não.

Outono – digo à vera –
é folha quadripartida.
Em quatro partes impera:
morte, dor, amor e vida.

Inverno – sabe-se agora –
não existe neste chão,
ou será, a qualquer hora,

primavera – tempo irmão –:
a primeira a ir embora,
e nunca mais a verão.

3. DOS EXTREMOS

Ao extremo, egoísmo.
Ao extremo, caridade.
Um e outro, mesmo abismo:
de cada um, a metade.

Se um quer subir na vida
e outro faz fila pra morte,
ambos estão de partida
sem saber o que é o norte.

Sem saber o que é o este,
no sul me abandonei
de um solo tão agreste.

Egoísmo, caridade:
de cada um nada sei,
nem mesmo a meia verdade.


4. DA SEMANA

Para a segunda, a dor
de começar outra vez.
Dai-me forças, ó Senhor,
de ser, nesta terça, três.

Chega a quarta, bem-vinda:
já é meio da semana.
Mas eis que a quinta, linda,
a mim já não mais engana.

A sexta é da cerveja.
O sábado, o silêncio.
Por mais que o olho veja,
em outra coisa eu penso.

O domingo logo cai.
Só nele morre meu pai.

PS: Agradeço ao James, que me ensinou a fazer itálico e negrito.

Publicado em 01 de julho de 2009 às 21:20 por briguet

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Não tenho telescópio em casa



Quando eu era menino, queria crescer logo. Meu sonho – ou melhor: meu objetivo – era virar adulto o mais rápido possível. Tinha dúvidas quanto a ser empresário, geólogo ou astrônomo. Mas a escolha era o menos importante. Essencial mesmo era fazer o relógio andar mais depressa e completar a maioridade. Grandes planos.

Ontem um não-leitor ou leitora (não sei: era anônimo) disse que estou em decadência. Boa notícia. Decadência é uma palavra mágica! Se decadente, já estive melhor. Quem é fóssil já viveu um dia. (O não-leitor ou não-leitora, é claro, nada tem a ver com meus sete queridos leitores.)

Quando eu era jovem, considerava-me velho. Ancião precoce, novidades não me empolgavam – e não me empolgam até hoje. Em minha opinião, juventude nunca foi mérito, nem qualidade. O tempo é muito escasso para perdê-lo sendo jovem.

Eis que cheguei, sem aviso ou preparo, à idade adulta. Deve ter acontecido há uns dez anos, pouco menos. Trinta anos para concluir o óbvio: maturidade não traz sabedoria. Maturidade é algo entre a obsolescência e a fadiga de material. Aliás, não tenho do que reclamar. Para meus modestos propósitos, venho funcionando bem. Visão, audição, paladar, equilíbrio, sono, apetite: tudo segue em paz, livre de desesperos e extravagâncias. Amo, sou amado, tenho amigos, trabalho, leio, conto piadas, faço imitações, ouço Bach, ando de ônibus, ando de táxi, entro no cheque especial. Engulo meu antidepressivo e meu remédio contra o colesterol. Sexta, cervejinha.

Tenho minhas implicâncias com o governo. Mas o que é o governo? Qual é o sentido de tomar posição política sobre assuntos banais, isto é, que não passam pela morte ou por Deus? Fico revoltado com os impostos, as frases do Lula, o puxa-saquismo, a arrogância da Petrossauro, o gigantismo do Estado, os anti-semitas, o Sarney, a Ideli Salvatti, o Requião, o PT, o Barbosa, o Belinati – mas sinceramente não vejo sentido em perder tempo com isso tudo. O tempo é muito escasso. Meu dom natural é a alienação política.

E a história do diploma de jornalismo? Passo. Rogério Fischer, meu querido amigo e mestre, com a veia que lhe é característica, emplacou o melhor título sobre a questão do diploma: “Você não vale nada, mas eu gosto de você”. Eu responderia com o verso seguinte da canção: “Tudo que eu queria era saber por quê”. O diploma continua valendo o que sempre valeu: nada. O que conta é o trabalho do indivíduo. O resto é retórica ou corporativismo – outros nomes para o medo.

Sou empresário, geólogo e astrônomo. Empresário de ideias falidas, geólogo de um só chão e astrônomo de céu nublado. Não tenho telescópio em casa, mas levo estas duas retinas para onde vou. Grandes planos, grandes planos.

Publicado em 01 de julho de 2009 às 10:04 por briguet

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Divino soneto

Com Deus não se faz contrato,
com Deus não se faz negócio.
Deus vai acima dos fatos
- dos meus, dos teus e dos nossos.
Com Deus não se faz acordo,
com Deus não se faz barganha.
Se pensas sujar-te gordo,
tu perdes e Ele ganha.
Deus não te deu uma vida
pra ser jogada no ralo.
Até mesmo o suicida
sabe onde aperta o calo.
Com Deus não se faz lambança:
não corras, que Ele te alcança.

Publicado em 29 de junho de 2009 às 21:29 por briguet

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Todos os caminhos levam ao lago



1. Olho o lago e sinto saudade. Um dia, estaremos todos sob as águas.

2. Acordo às três horas da manhã; abro a janela e fico observando o lago. Parece que escuto as primeiras águas passando pela barragem, meio século atrás.

3. O engenheiro que fez o lago define-se como “um técnico cartesiano que não gosta de poesia”. Sua obra, que agora completa 50 anos, dividiu a história da cidade em antes e depois. As palavras do professor José Augusto de Queiroz me fazem lembrar outro engenheiro, Euclides da Cunha, cuja obra maior, “Os Sertões”, foi um divisor de águas na literatura brasileira. O lago é um poema.

4. Quando vejo o lago, acho que ele sempre esteve ali. Como diz um antiquíssimo poema: “Nem nunca era nem será, pois é todo junto agora, / Uno, contínuo, pois que origem sua buscarias?” Parmênides de Eleia vive sob o lago.

5. Sei que o lago não é profundo. É um espelho d’água a refletir continuamente nossos pensamentos passados. Mas não te enganes: houve muitos que lá se afogaram.

6. O lago é nosso espelho. É o destino final de todas as caminhadas. Se procuras o centro; se buscas o poente; se te atrai o sol da manhã; se as luzes da noite são o teu guia; não importa o que faças – encontrarás o lago.

7. Heráclito de Éfeso também mora no lago. Se prestares atenção, ele está dizendo, em grego antigo: “Para as almas, morrer é transformar-se em água; para a água, morrer é transformar-se em terra. Da terra, contudo, forma-se a água, e da água a alma”.

8. Todos os caminhos levam ao lago. Nosso destino é andar sob as águas, lá onde moram todos os afogados.

9. De dia, ele tem um bilhão de cristais do sol ou a serenidade meditativa do céu frio. À noite, as inumeráveis fagulhas das luzes artificiais, como se ele lembrasse continuamente que também foi feito por mãos humanas.

10. Heráclito insiste: “O caminho para baixo e o caminho para cima é um e o mesmo”. Eu e meu pai gostávamos de caminhar até a barragem do lago. Um dia, ele não voltou. Hoje conversamos através de um espelho. “A harmonia invisível é mais forte que a visível.”

11. Nas águas do lago, está o mapa de nosso destino – impossível de ser consultado por olhos humanos.

12. O lago é a tez poluída de nossos pecados. No fundo, no fundo, ele é apenas um rio. Lava nossas almas. Ali, somos pescadores e pecadores.

13. Coração a céu aberto, ele trabalha silenciosamente, noite e dia. Londres tem o Big Ben; Londrina tem o lago.

14. Todas as ruas conduzem ao lago. Todas as praças e avenidas. Todos os traçados. Todas as vias acabam no lago. Todos os tempos. Todos os passados. E não podemos beber destas águas. Seus bebedores, nunca saciados, terão o lago por todos os lados.

Publicado em 29 de junho de 2009 às 08:59 por briguet

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Bom fim de semana

Publicado em 26 de junho de 2009 às 19:28 por briguet

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Instituto Universal Brasileiro



A decisão do STF sobre o diploma serviu para acabar com a ideia de que jornalista é uma pessoa especial. Não é, não. Qualquer indivíduo com razoável domínio sobre a palavra escrita pode ser um bom jornalista. E para isso ninguém precisa ter diploma universitário.

Moral, decência, responsabilidade e vergonha na cara são coisas que a gente não aprende na faculdade. Pelo contrário: tem muita gente que perde essas coisas no curso universitário. Como bem observou meu amigo Silvio Grimaldo – um professor que bem poderia ser jornalista, se quisesse –, cada época tem sua falácia: a ditadura militar (mãe do diploma obrigatório de jornalismo) impunha aulas de Educação Moral e Cívica e Estudo dos Problemas Brasileiros; o governo Lula impõe aulas de cidadania. É por essas e outras que eu abro meu livro do Karl Kraus cada vez que ouço alguém mencionar cidadania e ética. São palavras esvaziadas até a medula pelos vampiros ideológicos.

Quando vejo a turma – inclusive muitos amigos – a defender com unhas e dentes o diploma de jornalismo, fico imaginando os magníficos cursos que essas pessoas fizeram. Espero – sentado, é claro – que alguns deles passem a descrever as inesquecíveis aulas, os veneráveis mestres, os maravilhosos projetos, as preciosas ementas, as fulgurantes bibliografias dos departamentos de comunicação. Aos meus amigos que ainda acreditam em diploma obrigatório, só tenho um apelo a fazer: PAREM DE MENTIR A SI MESMOS!

A comparação com medicina e engenharia é uma piada sem graça. Essas áreas envolvem procedimentos muito mais complexos e científicos do que as técnicas de jornalismo. Qualquer pessoa com um bom manejo do idioma conseguiria se tornar um bom repórter em poucos meses. Semanas, talvez.

Tenho diploma, sim – e fiz um péssimo curso de jornalismo. Se tenho algum mínimo conhecimento, eu o obtive sozinho, indo a prateleiras da biblioteca jamais citadas por algum professor de comunicação.

O currículo de jornalismo me ensinou menos do que um curso do Instituto Universal Brasileiro (aqueles que vinham na página central das revistas do Pato Donald). Não posso aceitar que alguém tenha de passar por quatro de anos de enrolação para trabalhar em jornal.

Os picaretas existem e vão continuar existindo. Eles pertencem à humanidade. E os cursos de jornalismo não deixam de formá-los às pencas.

Depois da fragorosa derrota no Supremo, o pessoal do sindijornalismo está cortejando deputados e senadores. Exigem uma PEC para ressuscitar o diploma obrigatório. Lula e Sarney, na visão dos comissários do Soviete Nacional de Jornalismo, são problemas menores. Ao contrário: são aliados. Na verdade, os sindijornalistas e seus acólitos (muitas vezes, inocentes úteis) desejam ardentemente o controle do Estado sobre jornalistas “indesejáveis” e “inimigos do povo”. Querem fazer contra as poucas vozes da oposição a mesma campanha que fazem hoje contra Gilmar Mendes. O crime deste senhor, além de comparar jornalistas a cozinheiros (o que pode ser ofensivo... para os cozinheiros), é enfrentar a esquerda brasileira. Para a falange chapa-branca, Mendes é “de direita”. E não existe maior crime que esse no Brasil de Lula.

Vergonha!

*****

Sobre o MJ, falamos depois. Já há muitos (e bons) textos circulando na rede. Agora só digo três coisas:

1) As piadas típicas de morto famoso já estão rolando soltas;

2) Se o assassinato de John Lennon acontecesse hoje, uma câmera de segurança teria flagrado o crime;

3) Nunca aprendi a dançar e, principalmente, andar daquele jeito. Bem que tentei (quem pode dizer o contrário?).

Publicado em 26 de junho de 2009 às 12:42 por briguet

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O julgamento de Brodsky



Em 1964, na União Soviética, o poeta russo Joseph Brodsky foi julgado por “parasitismo social”.

Quando vejo o pessoal defendendo com unhas e dentes o diploma obrigatório de jornalismo, a figura do jovem Brodsky me vem à mente.

Abaixo, segue a transcrição do julgamento de Brodsky, que foi transformada em cena da peça “Liberdade, liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel (1965).

Notem os trechos destacados em letra maiúscula (infelizmente, não consigo usar o negrito nem o itálico neste blog...)

Troque-se poesia por jornalismo, e teremos o argumento básico da turma que defende o Soviete Nacional de Comunicação.

*****

Juíza Savelya: Qual é seu nome?

Brodsky: Joseph Brodsky.

Juíza: Qual é sua ocupação?

Brodsky: Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...

Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a Corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?

Brodsky: Pensei que fosse um trabalho regular.

Juíza: Dê uma resposta precisa.

Brodsky: Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...

Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.

Brodsky: Eu trabalhava: eu escrevia poemas.

Juíza: Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.

Brodsky: Tinha contratos com uma editora.

Juíza: Há quanto tempo o senhor trabalhava?

Brodsky: Tenho trabalhado arduamente.

Juíza: Ora, arduamente! Responda certo.

Brodsky: Cinco anos.

Juíza: Onde o senhor trabalhou?

Brodsky: Numa fábrica, em expedições geológicas...

Juíza: Quanto tempo trabalhou na fábrica?

Brodsky: Um ano.

Juíza: E qual é seu trabalho real?

Brodsky: Sou poeta. E tradutor de poesia.

Juíza: QUEM RECONHECEU O SENHOR COMO POETA E LHE DEU UM LUGAR ENTRE ELES?

Brodsky: NINGUÉM. E QUEM ME DEU UM LUGAR ENTRE A RAÇA HUMANA?

Juíza: O SENHOR APRENDEU ISSO?

Brodsky: O QUÊ?

Juíza: A SER POETA? NÃO TENTOU IR PARA UMA UNIVERSIDADE ONDE AS PESSOAS SÃO ENSINADAS, ONDE APRENDEM?

Brodsky: NÃO PENSEI QUE ISSO PUDESSE SER ENSINADO.

Juíza: ENTÃO COMO...?

Brodsky: EU PENSEI QUE... POR VONTADE DE DEUS...

Juíza: É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?

Brodsky: É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documento todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.

Juíza: O senhor não precisa de ternos, sapatos?

Brodsky: Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.

Juíza: Os especialistas aprovaram seus poemas?

Brodsky: Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.

Juíza: Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.

Brodsky: Eu trabalhava. Eu escrevia poemas...

Juíza: Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?

Brodsky: As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.

Juíza: Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.

Brodsky: A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...

Juíza: Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.

Brodsky: Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.

Juíza: O senhor tem algum pedido a fazer à corte?

Brodsky: Eu gostaria de saber por que fui preso.

Juíza: Isso não é um pedido; é uma pergunta.

Brodsky: Então não tenho nenhum pedido.

Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos.

Publicado em 24 de junho de 2009 às 19:10 por briguet

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Lula e a Kombi



Às vezes acho que só eu não gosto do governo Lula. Estou quase sozinho na oposição. Somos eu e mais uns gatos-pingados, entre eles o professor Silvio Grimaldo e o taxista João. A oposição ao presidente, aqui em Londrina, não enche uma Kombi. E o pior é que não sei dirigir. Será que o João vai cobrar para assumir o volante? Afinal de contas, ele é um profissional; vive disso. Nem todos fazemos jus aos benefícios oficiais. Ainda não inventaram um Bolsa Oposição. Ainda.

Será que realmente todos os brasileiros estão felizes em trabalhar até o dia 27 de maio para o governo? Somos um povo de funcionários públicos involuntários, mas contentes. Em outras palavras, somos um povo de bananas. O grande problema de um povo de bananas é que ele tende a escorregar – mais dia, menos dia – na própria casca.

Será que todos estão contentes em ouvir Lula elogiar o MST e, sem seguida, afagar os ruralistas? Será que todos estão contentes em ouvi-lo defender o Sarney? O gaúcho Fábio Silveira estranhou que não houvesse nenhum protesto, nenhunzinho, durante a visita da comitiva presidencial a Londrina. Segundo o Fábio, lá no Rio Grande sempre tem protesto em visita oficial. É praxe. Mas nem tudo está perdido, Fábio. Eu estou protestando. Alô? Tem alguém ouvindo? FORA, LULA! Deixe a nossa Kombi em paz.

Requião, em mais uma aula-show, comparou Lula a Franklin Delano Roosevelt. Não quero entrar em detalhes históricos sobre os problemas de Roosevelt, em especial no primeiro mandato, mas eu só me espanto de não ter ouvido nenhuma gargalhada quando Requião fez o comentário. Não sei se a escolinha mais engraçada é a do Requião ou a do Sidney Magal.

Por falar em Requião, achei ótima a ideia de construir o Teatro Municipal no Jardim Botânico. Ambos não existem e podem ser reinaugurados eternamente. O Jardim Botânico é o único jardim do mundo que tem mais inaugurações do que árvores.

Mas voltemos a Lula. O homem está no sétimo ano de mandato e ainda baseia todos os seus discursos em criticar o governo anterior. Isso quando o único mérito de sua administração está em manter a política monetária... do governo anterior! Pensando bem, uma coisa explica a outra. Lula critica tanto FHC porque não seria ninguém sem... FHC. Inverteu-se a fábula: o sapo é uma decorrência do príncipe.

Enquanto Lula recebia uma saraivada de elogios por todos os lados, os manifestantes em Teerã recebiam um tratamento algo diferente. Ontem, pelo YouTube, vi a cena da morte de uma jovem iraniana durante os protestos contra o governo dos aiatolás. Protestos esses que Lula comparou a uma revolta “da torcida do Vasco contra um título do Flamengo”. Mais uma metáfora futebolística de Lula – e mais uma bola fora.

Para quem estiver interessado, ainda tem lugar na Kombi.

Publicado em 24 de junho de 2009 às 11:35 por briguet

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Aiatolula

A barba é parecida...

Lula está entre nós. Logo hoje que eu queria falar dos três grandes cegos da literatura: Homero, Milton e Borges. Minha vontade é imitar Ulisses quando enganou o Ciclope, que tinha um olho só; se alguém perguntar meu nome, direi que é Ninguém.

“Cesse tudo que a antiga Musa canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”, escreveu Camões, pai de nossa língua, que ficou cego de um olho. Tão bom seria esquecer Lula e ficar só com os poetas. Entre Luís Vaz e Luiz Inácio, eu fico com o primeiro. Entre Lula e Ninguém, eu fico com Ninguém.

Obama disse que Lula é “O Cara”. Acho que o morador da Casa Branca se enganou. O apelido mais justo seria “Os Caras”. Vocês, meus sete leitores, por acaso se lembram do desenho “Os Impossíveis”, em que havia um super-herói chamado Multi-Homem? E viram o filme “Zelig”, de Woody Allen? Pois então. Lula é uma mistura de Multi-Homem e Zelig. Como o Multi-Homem, ele se desdobra em vários. Como Zelig, ele tem o dom de assumir a personalidade de quem está por perto.

Lula se reúne com os sem-terra, depois com os ruralistas. Sabe muito bem que a reforma agrária defendida pelo MST só seria factível sob um regime maoísta, mas continua dando corda – e muito dinheiro – para o movimento. Também sabe que não vai atender aos anseios dos ruralistas, mas procura agradar a estes também.

Contudo, vamos esquecer Lula por um momento. Eu gostaria de falar sobre a frase do heresiarca de Uqbar citada por Borges em “Ficções”: “Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens”. Curioso é que a frase do heresiarca citada por Borges foi lembrada antes pelo escritor Bioy Casares, grande amigo do mestre argentino. A terrível frase é um espelho do heresiarca para Bioy Casares, de Bioy Casares para Borges, de Borges para o leitor. São Paulo diz: “Hoje vemos como através de um espelho, confusamente; mas então veremos face a face”. De certo modo, somos todos espelhos uns dos outros. Somos todos cegos como Homero, Milton e Borges. Às vezes arrancamos nossos próprios olhos, como fizeram Édipo e Demócrito.

Viram como Borges é um assunto melhor do que Lula? Se o assunto fosse Lula, eu acabaria falando daquele outro escritor, que não serviria para desatar as correias das sandálias de Borges (e imagino que Borges não usava sandálias). Vocês sabem, aquele escritor que também foi presidente e que não é uma “pessoa comum”, segundo Lula. De fato, uma pessoa comum não conseguiria recuperar o sentido literal da palavra mordomia.

Se eu falasse sobre Lula, teria de comentar também o entusiástico apoio dado ao regime dos aiatolás do Irã. De certa forma, a exemplo de Khamenei, Lula se considera um líder supremo. O nosso Aiatolula.

Pronto, falei.

Publicado em 22 de junho de 2009 às 09:35 por briguet

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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Aqui está morto um homem
que perdeu tempo, amou mulheres,
bebeu cerveja e fez uns versos.

Aqui está morto um homem
tão imperfeito
que o lado esquerdo e o direito
lhe pareciam
contra-sensos.

Aqui está morto um homem
que ouvia Bach
como a mãe ouve o riso do filho,
como o cachorro ouve o mínimo silvo.

Aqui está morto um homem
que teve excessos
e viu uns filmes, leu uns livros.
Sua derrota, seu sucesso.

Aqui está morto um homem
sem elegância nem bom senso.
Na mão direita, levava um copo.
No bolso esquerdo, trazia um lenço.

Aqui está morto um homem:
morreu de amor e de egoísmo.
Mais de soberba que alcoolismo.
A sua casa
era também abismo.

E tinha tanto medo, o homem,
que ocorreu algo incrível:
depois de morto,
estava vivo.

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